Os desafios de realizar o transplante pulmonar no Brasil
14 de setembro de 2011 - 03:00
Estar na fila á espera de um transplante não é uma situação fácil e quando esse órgão é o pulmão tudo fica mais difícil. Para se ter uma ideia, segundo dados do Hospital Dr. Carlos Alberto Studart Gomes (Hospital do Coração de Messejana), que iniciou em maio deste ano as avaliações dos potências doadores de pulmão, até a última segunda-feira, dia 12 de setembro, a unidade precisou descartar 58 órgãos por condições clínicas inadequadas.
Atualmente, no Ceará existem dois pacientes aptos a realizar o transplante de pulmão e outros dez em avaliação clínica.
Problemas
Entretanto, essa realidade não se restringe somente ao Ceará. Em todo o Brasil, unidades encontram dificuldades para realizar o transplante de pulmão. Segundo dados da Associação Brasileira de Transplantes (ABTO), de janeiro a junho deste ano, foram realizados com sucesso apenas 15 transplantes somente em três estados brasileiros. O de São Paulo registrou nove procedimentos, enquanto Rio Grande do Sul cinco e o Ceará, um.
Segundo o médico Antero Gomes Neto, coordenador do Programa de Transplantes de Pulmão do Hospital do Coração de Messejana, o diagnóstico tardio da morte encefálica, a falta de preparo dos médicos, a imensa facilidade de aparecer infecção no órgão, compatibilidade sanguínea e até mesmo de tamanho, são questões que tornam o pulmão um dos órgãos de mais difícil captação.
Ainda segundo ele, as barreiras são tão grandes que enquanto o fígado e os rins são aproveitados em 90% dos potenciais doadores, o pulmão não chega a 5% de aproveitamento no País.
O Ceará realizou, no dia 14 de junho deste ano, o primeiro transplante de pulmão do Norte e Nordeste e o grande contemplado com uma vida nova foi o ex encarregado de obra, Francisco Eudes Aguiar. Ele conta que ficou durante quatro anos à espera do órgão e confessa que por muitas vezes chegou a pensar que não conseguiria.
“Fui indicado para fazer o transplante em 2007. Na época, como o procedimento não era feito aqui no Ceará, fiquei na fila de espera em São Paulo, mas nunca fui chamado”, diz.
Francisco Eudes ainda lembra da dificuldade de respirar que o impossibilitava de trabalhar, ir ao supermercado, e muitas vezes até de tomar banho. No entanto, hoje, depois de três meses da cirurgia, ele confessa ter uma vida nova. “Antes, eu só respirava com a ajuda de oxigênio líquido. Hoje, já posso fazer tudo sozinho e sem me cansar. Sei que é difícil para a família fazer uma doação depois que perde um ente querido. Mas, por outro lado a família deve pensar que está trazendo uma vida de volta”.
Dificuldades
Para a coordenadora Clínica do Transplante de Pulmão do Hospital do Coração de Messejana, Cyntia Viana, para que haja um maior aproveitamento de pulmões é necessário uma manutenção mais adequada, além de um rápido e efetivo diagnóstico da morte encefálica.
“O pulmão é o órgão mais suscetível à infecções já que está em contato direto pela via aérea com o ambiente externo. É por isso que há uma grande necessidade de capacitar mais profissionais para realizar esse diagnóstico”, diz Cyntia.
E é nessa perspectiva que segundo a coordenadora da Central de Transplantes do Ceará, Eliana Barbosa, estão sendo realizados cursos pela Secretaria da Saúde do Estado (Sesa) em parceria com a Associação Brasileira de Transplantes, para médicos, assistentes sociais, enfermeiros e psicólogos. O objetivo dos cursos é capacitar os profissionais de saúde para realizar o diagnóstico de morte encefálica com rapidez e precisão.
De acordo com a coordenadora, durante os meses de maio e junho deste ano, a capacitação aconteceu com os profissionais do Instituto Dr. José Frota (IJF). Na semana passada foi realizado um curso no Hospital Geral de Fortaleza (HGF) e neste fim de semana será realizado um curso em um hotel na Avenida Beira- Mar.
“Não adianta ter apenas uma grande quantidade de médicos realizando o diagnóstico e aparelhos sofisticados, é necessário que eles estejam aptos para realizar o diagnóstico da morte encefálica”, alerta Eliana Barbosa.
Solidariedade
15 Transplantes de pulmão foram realizados com sucesso, de janeiro a junho deste ano, somente em três estados brasileiros: São Paulo, Rio Grande do Sul e Ceará.
2 Pacientes no Ceará estão aptos a realizar o transplante de pulmão e outros dez em avaliação clínica. Os dados são da Associação Brasileira de Transplantes.
Fonte: Diário do Nordeste